As emoções atrapalham?

October 25, 2017

Todos nós, cada um de nós, uns com os outros, falamos muito, refilamos, apontamos o dedo, franzimos o sobrolho, ficamos ruborizados de zanga e derretidos com o amor, mas verbalizamos poucas vezes frases como: «Eu estou corado porque me sinto zangado», «o teu abraço deixou-me muito feliz» ou «a nossa conversa deixou-me triste».

 Quantas vezes nomeia as emoções no decorrer da vida e enquanto está com os seus filhos? Poderá nunca ter pensado nisso, mas, na verdade, aprender o que são emoções, exprimi-las, identificá-las e distingui-las, é uma tarefa essencial para o desenvolvimento da criança e no adulto em que ela se tornará.

Compreendermos o que sentimos permite-nos regular melhor o nosso comportamento, tomar decisões mais acertadas, conhecermos as emoções que temos, e porque as temos, e conseguirmos, assim, sentirmo-nos bem e, até, interagirmos melhor com os que nos rodeiam.

 Poderá mesmo, todos os dias, em cada conversa, promover a expressão emocional de toda a família e, deste modo, de uma forma espontânea e natural, o seu filho adquire um repertório emocional saudável e equilibrado, sentindo as emoções como elas são, correndo menos riscos de transformar tristeza em zanga, culpa em agressividade, vergonha em inibição excessiva e frustração em raiva. Todos os dias somos invadidos por dezenas de emoções, mas nem sempre paramos para perceber o que estamos realmente a sentir.

 Podemos mesmo falar de literacia emocional. Letrados emocionalmente? Sim… na verdade, este é um assunto de toda a vida e mais além, porque é aquilo que permite colorir as nossas experiências, atribuir-lhes um significado. Desenvolver a literacia emocional significa conseguir identificar, expressar, processar e regular as emoções e, consequentemente, ajustar o comportamento a cada situação, de acordo com as nossas emoções e com as dos outros.

Ainda no jardim-de-infância, logo na primeira infância, deve desenvolver-se a linguagem emocional. Ajudar a criança pequena a perceber o que está a sentir, o que fez os outros sentir e a regular o que sente durante as primeiras experiências de vida, quando, por exemplo, um amiguinho lhe tira o brinquedo ou quando a educadora a põe de castigo.

Com a entrada para o primeiro ciclo, a chegada dos primeiros testes de avaliação, os trabalhos e as tarefas escolares, a literacia emocional é uma ferramenta facilitadora das aprendizagens. É fundamental ter a consciência de que é normal sentir ansiedade, preocupar-se ou desiludir-se com uma nota, e aprender a gerir esses novos desafios e o que sentimos em relação aos mesmos. É essencial não só nas aprendizagens, mas também na hora do recreio, ajudando a criança a relacionar-se, a defender-se do que é mau e injusto e a expressar o que quer, o que gosta e o que sente. É o que ajuda a criança a colorir as experiências com os pares, a apreender o certo e o errado, o que é suposto e o que é desajustado, o que a faz feliz e o que a leva a não querer ir para a escola ou para o pátio.

Mesmo se for tristeza? Os pais devem mostrar que estão tristes? Não a poderá deixar insegura? Os filhos mais novos ainda são bastante dependentes emocionalmente dos pais, pelo que sentem a instabilidade destes e vivem-na como se fosse sua. Assim, é muito importante que descodifiquem a expressão emocional dos pais e que percebam que é possível e necessário sentirmos emoções menos fáceis, quando nos acontecem situações também elas mais dolorosas. No caso de um adulto que está muito desorganizado emocionalmente, é importante evitar choros desesperados, uma vez que estes podem destabilizar completamente a criança, fazendo-a sentir-se responsável, por ser ela a fazer o papel de adulto. Chorar com a criança pode ajudar a fomentar a noção de união e de que podem expressar as emoções juntos. O mesmo se aplica nas emoções agradáveis, em que os pais podem festejar com a criança, expressar a felicidade, o orgulho, o entusiasmo e a excitação.

Na adolescência, os desafios emocionais são mais do que muitos e a preparação emocional é essencial para lidar com eles. A adolescência é, por excelência, a época de maiores mudanças de humor, maior inibição relativamente aos pais e à expressão do que se sente. Nesta fase, é mais difícil classificar o que se está a sentir, pela novidade e pela mistura emocional e, até, pelos desafios relacionais que se impõem. Os adolescentes não conseguem, facilmente, separar sentimentos de pensamentos e comportamentos. É frequente que os adolescentes que falaram pouco de emoções se deparem, enquanto adultos, com a dificuldade de ajustar os comportamentos às situações.

A literacia emocional é a chave para o sucesso pela capacidade de, não só, interpretarmos o que estamos a sentir, mas também por nos permitir fazer uma leitura das emoções e intenções dos outros.

As emoções, se bem interpretadas e vivenciadas, têm uma função protectora, ajudando-nos a identificar o perigo, a perceber a necessidade de estar alerta ou a importância de agir ou não agir.

A solução para este assunto das emoções está na capacidade de as regularmos. No caso das crianças, os adultos devem ajudá-las a não privilegiar em demasia uma estratégia de supressão. Este tipo de estratégia funciona como um bloqueio das emoções, não lhes dando espaço para serem percebidas e vividas, fingindo que não estão a sentir (por exemplo, quando um amigo a trata mal ou goza com ela e a criança diz que não se importa, como se nada tivesse acontecido.). Contudo, as mesmas encarregam-se de ter um efeito, que se pode traduzir num excessivo comportamento internalizado (fechamento) ou externalizado (maior agressividade). É importante não fingir que não se sente, que não tem importância, não ter a tentação de ignorar, como se assim passasse. Há que valorizar aquilo que está a ser sentido, contextualizando e desenvolver estratégias para lidar com isso. Não ter receio de falar de emoções  negativas — elas não aumentam por isso. Não ter receio de exprimir as positivas — não tira o encanto das experiências, pelo contrário, amplifica-o. Identificar emoções é parte de um caminho importante a nível neurológico, funcionando como uma ajuda ao cérebro para, depois de saber o que se passa, mobilizar recursos para a regulação e a acção.

A capacidade de ser emocionalmente inteligente mune a criança, o adolescente e, mais tarde, o adulto de ferramentas para atingir o sucesso nas diferentes etapas e face aos desafios da vida, seja no mundo interior, na vertente académica e profissional ou nas relações com os que se vai cruzando.

A supressão de emoções, ou a negação das mesmas, pode levar a perturbações psicológicas, como a ansiedade ou a depressão, ou a indivíduos com comportamentos desajustados, com dificuldade de adaptação e relacionamento.

O desafio dos pais é desenvolverem a sua própria literacia emocional, ajudando a criança e o adolescente a contactar com as diversas emoções e a dar-lhes significado, sempre num exercício de respeito por características individuais, níveis de desenvolvimento e formas de as viver.

Os pais, por história de vida e/ou educação, podem, eles próprios, necessitar de se exercitar nesta área da literacia emocional, tornando-se exemplos emocionalmente inteligentes, capazes de sentir e lidar com o que sentem (ou às vezes não). Enquanto pais, e sendo a literacia emocional um assunto de toda a vida e mais além, deverão ter um papel activo nas experiências emotivas que proporcionam aos filhos no que respeita à aceitação e ao saber estar. Deverão ajudá-los a reflectir sobre emoções, a conseguir estar conscientes das mesmas e a colocarem-se no lugar do outro, hipotetizando o que poderá estar a sentir, promovendo momentos de foco no presente emocional e de partilha de emoções e formas de regulação das mesmas.

É um trabalho extenso, complexo e diário, mas que, com o treino, se torna automático, fácil e prático, melhorando igualmente a própria comunicação entre pais e filhos.

 Assim, tal como ensinamos os filhos a atar os atacadores e a comer sozinhos, também os ensinamos a expressar emoções. É uma tarefa de todos os dias, essencial para a construção equilibrada e saudável da personalidade.

 

E que tal trazer os miúdos para descomplicar as emoções?

 

 

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