Para Sempre... Como se fala da morte com os miúdos?

April 3, 2017

No passado dia 19 de Março, tive o grande privilégio de estar como oradora no lançamento do livro "Para Sempre" da minha querida Sandra José, com ilustrações do Hugo Ferraz.

Um lançamento bonito e íntimo, no qual decidi levar por escrito as palavras que resolvi dizer nesta ocasião.

Partilho convosco o que reflecti porque, de uma forma ou de outra, um dia tropeçaremos em coisas difíceis e tristes.

 

Como se fala de morte e de doença? Como se diz a um filho que está doente e vai morrer? Como se diz morreu?

Não sei. Primeira resposta que temos e podemos aceitar como possível: Não sei.

Porque não sabemos tudo e eles também não vão saber. E educar é preparar para a vida, é experimentar de acordo com cada fase e possibilidades da mesma aquilo que é viver, sentir, pensar.

Passa-nos tudo pela cabeça, tentamos fingir, sorrir quando por dentro choramos, repetir com insistência: “Está tudo bem, vai ficar tudo bem.” Mas está? O resto do mundo e do que se passa mostra-lhes que está tudo bem? Talvez não.

Limpamos as lágrimas mesmo antes de caírem, falamos baixinho para não ouvirem, queremos protegê-los das notícias más, do sofrimento que também sentimos. E que sim, faz parte da vida. E assim, será que eles se permitirão chorar? Falar? Perguntar?

Às vezes não falamos, uma espécie de: se não falar, se não focarmos, é como se não existisse e os dias vão passando e o assunto passa. Mas por dentro não passa. Eles sabem exactamente o que se passa. Sabem que se morre, que se fica doente. Que se chora porque se está triste. Porque o sentem. “Eu finjo que acredito no que ele diz. Fala para mim como se eu não entendesse nada do mundo dos grandes, mas eu percebo tudo.”

E nós adultos? Sentimos? Permitimos sentirmos e que sintam? Quem protegemos e o que não conseguimos enfrentar? Quem não consegue dizer e ouvir alto: está doente. Morreu. Vai morrer?

E depois vêm as histórias, as metáforas, a continuidade de fantasia e também crenças, claro, que adoptamos e usamos para nos acalmar e apaziguar. Ou pelo menos tentar. Mas e as interpretações dessas histórias fantasiadas? Serão sempre positivas e apaziguadoras? “As pessoas não se podem partir ao meio

Tantas vezes é a criança, mesmo doente, o cuidador. Invertem-se papéis, o assunto é tão difícil para o adulto que eles percebem, guardam e fazem festinhas como se de repente crescessem. Mas não cresceram e aprender a cuidar é importante, mas inverter papéis é prejudicial.

Acima de tudo, sermos nós a fazer um trabalho: aceitarmos que a morte existe, a doença também, que há uma parte que não sabemos responder, que não sabemos mas que tem um nome e dar os nomes organiza a realidade, ajuda-nos a chorar se isso for o que nos resta fazer. Chorar, falar, não silenciar porque educamos quando nos calamos, não responder a tudo e conquistar em cada segundo uma tranquilidade inerente, poder mostrar zanga também, saber reconhecer quando é tristeza, expressar por palavras o que dói, abraçar. “... temos de os deixar sair, porque senão ficamos com pensamentos entupidos e é perigoso para os ouvidos.”

Sentir é bom, porque nos faz pensar e, quando pensamos...”

 

Para Sempre é precioso, porque é livro, e os livros acalmam-nos porque legitimam o que se sente, fazem-nos pensar: Ah os outros também sentem, afinal é normal o que sinto. Legitima, torna real, normaliza e permite que falemos, connosco e com os outros. Dá nome às coisas, é a voz de uma criança que ensina aos adultos o que é a sentir, viver.

A escrita, as criações da Sandra, em livro, em teatro, no que mexe, tem uma sensibilidade artística única. Única porque faz o mais difícil e que, desde o início na psicologia, procurei e com ela encontrei: a arte com um olho clínico, profissional, como quem estudou minuciosamente e num curso e na prática os temas a que se dedica. E será que não o faz? Na vida, na experiência, e de outras formas? E isso aumenta a riqueza da obra, da criação. Porque nos faz identificar, sentir, pôr no lugar, identificar, como se vivêssemos como as personagens que cria. E aqui não foi excepção, foi mais uma vez a confirmação de que o faz de uma forma irrepreensível, que admiro, antes de tudo. Não deixando de lado as ilustrações, essenciais e tão criteriosas neste livro, com a leveza, a suspensão de todo o que é representado, os olhos que comunicam, a realidade misturada com algo que parece pensamento e que nos transmite a sensação que no final necessitamos: a tranquilidade.

Antes do livro para crianças, é um livro para adultos, disse-me a Sandra. E realmente quanto mais o leio, mais compreendo isso:  Que nos ajuda a pensar e a sentir para ajudar a pensar e a sentir. E no fim, a não esquecer que às vezes mesmo com a morte e com a doença, os miúdos e nós também somos mais do que alguém que está de luto, que está doente. Às vezes só queremos mesmo olhar pela janela, sentir e acima de tudo, viver o presente.

E o Sol vai mesmo nascer todos os dias.

 

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